
Carlos Eduardo Miranda, ou apenas Miranda, como é mais conhecido entre os iniciados do rock gaúcho, é um cara franco. Fala o que pensa, e fala tudo na cara. “É o meu jeito, eu sou assim mesmo”, assume o produtor. Se para alguns essa postura pode significar muitas portas fechadas, esse não é o seu caso. “Foi a franqueza que me abriu muitas delas”, afirma. Mesmo com a língua afiada, ele acumula sucessos ao longo de duas décadas de carreira. Atualmente no comando do site TramaVirtual, ele foi o responsável por lançar ao mundo a Cansei de Ser Sexy. Em bate-papo com o MSA, Miranda falou ainda sobre criação e produção, postura profissional e deu dicas de “como chegar lá” para as bandas iniciantes. Confira na íntegra:
MSA: Tu já estiveste no palco, com a Urubu Rei e outras bandas, e se firmou nos bastidores, com a produção. Para ti, o que foi mais prazeroso? Fazer ou produzir música?
MIRANDA: Olha, não tem muita diferença entre produzir ou fazer. As duas coisas podem ser legais, o que importa é o quanto aquilo que tu está fazendo realmente é verdadeiramente teu, e o quanto isso te abastece a alma. Produzindo eu fiz muito mais coisas do que como artista, então a maior parte do prazer que eu tive na vida com o trabalho musical foi com certeza na produção. Só por uma questão mesmo de oportunidade que eu tive.
MSA: E como tu te envolveste com produção? Como começou essa história?
MIRANDA: Ah, eu comecei a trabalhar para o teatro, sem cobrar, só para poder usar o estúdio de graça. O pessoal me pagava o estúdio, e eu fazia a trilha. Aí nessas eu acabei pegando uma boa prática de estúdio. Não foi intencional isso, mas acabou me levando à produção. Aí como eu estava familiarizado com o estúdio, quando algum amigo ia gravar uma demo me chamava para dar uma força. Então eu produzi duas músicas do Júlio Reny numa coletânea, um compacto do Pupilas Dilatas… E aí começou a minha carreira, aos poucos. Eu fiz o selo Vórtex junto com o Wander e os Replicantes. Eu acho que o Vórtex foi o grande estopim, me abriu caminhos em São Paulo. E era um trabalho ruim, eu compilava coisas, botava trabalho artístico meu na roda também, mas foi isso que me fez ficar conhecido por lá.
MSA: Tu és conhecido por ter um temperamento forte. Isso já fechou alguma porta?
MIRANDA: Não, pelo contrario, foi a franqueza que me abriu muitas delas. Eu nunca entrei no embalo de ninguém, sempre segui os meus próprios princípios, e isso me garantiu sempre muito respeito. Muitas vezes, mesmo errando, eu dei minha opinião e fiquei firme nela. Sempre tive um ponto de vista relevante. E embasado, que é uma coisa importante, sem falar mal por falar mal.
MSA: Qual foi a maior roubada em que tu te meteste, dentro da produção?
MIRANDA: Eu nunca me senti numa roubada. Eu já fiz trabalhos complicados, coisas maiores do que eu tinha medido… Mas eu nunca chamaria de roubada, porque foram coisas que tiveram um resultado legal, que me fizeram muito feliz. Então não há nada que eu possa chamar de roubada na minha carreira.
MSA: E qual foi o tiro no escuro que deu certo? Aquilo que tu jamais pensarias que funcionaria, e no final deu bons resultados?
MIRANDA: Acho que nunca teve exatamente isso. Aconteceu mais o contrário, de coisas que eu acreditei muito que aconteceriam, e lamentavelmente não vingaram. Vivi isso várias vezes, e sempre foi muito triste. Não chega a ser uma decepção, mas tu ficas um pouco frustrado de não ter atingido aquilo que tu esperavas. O que acontece às vezes é uma banda que eu acreditei que ia trabalhar, ir atrás, não fazer isso tanto quanto deveria. Isso é muito ruim.
MSA: Por último, que dica tu darias para as bandas que estão começando? O que é essencial que elas façam?
MIRANDA: O essencial é trabalhar sério. Ensaiar muito, mas muito mesmo, não duas vezes por semana como a galera faz aí. Tem que ser todo dia, dedicar várias horas para isso. Conseguir bom equipamento também é fundamental. Nos shows, basicamente se ganha no grito. Quem falar mais alto, quem fizer o som mais foda é que vai se destacar. O equipamento e a técnica de execução precisam ser impecáveis. Ter autocrítica, não achar que está tudo bom, que tanto faz. As coisas têm que ser boas de verdade. Viajar, fazer contatos, também é muito importante. Assistir aos shows de outros músicos, não ficar vivendo no seu mundo. Nesse meio, ninguém consegue nada sozinho. É preciso fazer uma cena, fazer parte de uma cena, conviver numa cena. Senão nada acontece.