
Cinquenta anos, mais de 20 deles dedicados à produção de espetáculos. Sandra Narcizo, atualmente no comando da MS2 Produtora, acumula conhecimento – e muitas histórias para contar. A produtora, que no inicio de sua trajetória fez amizade com Sting, quando o ex-líder do The Police veio a Porto Alegre, em 1987, hoje gerencia uma diversidade de artistas. Além de seu trabalho no teatro, é responsável por atrações musicais que vão da MPB ao Rock. Entre eles, o compositor Marcelo Delacroix, a banda Izmália e o grupo uruguaio Fugata Tango. Para ter sucesso em mundos tão diferentes, ela revela que o segredo está na confiança. “O artista confia sua imagem e sua carreira ao produtor. É preciso muita confiança”, afirma.
MSA: Como tu te envolveste com produção? Como tudo começou?
SANDRA: Na verdade eu comecei a fazer produção sem saber que fazia produção. Comecei a administrar eventos, contratações de shows, e fazia a organização em determinadas áreas. Área de alimentação, área de produção, de planejamento propriamente dito… E isso foi crescendo, porque quem começa a fazer produção não consegue parar mais. Na verdade, o que é a produção? É administrar uma área de um evento. Na medida do possível, tu vais aprendendo e abrangendo teu nível de atuação. Quando tu começas a trabalhar em um projeto que tem sucesso, outras pessoas que estavam envolvidas ou apenas assistindo acabam te contratando. Pedem um serviço, e depois outro e mais outro. Dentro da música, o primeiro grande evento no qual me envolvi foi a vinda do Sting a Porto Alegre.
MSA: Tem uma história de que ele teria se encantado por ti…
SANDRA: Eu acho que ele gostou de trabalhar comigo. Mas pelo jeito dele, isso poderia acontecer com qualquer um que estivesse no meu lugar. Ele é de uma generosidade tremenda. Eu trabalhava na área de alimentação, e fiquei responsável pelo cardápio dele, que era macrobiótico na época. Então eu fiz cursos sobre a macrobiótica e o acompanhei nesse show. Foi engraçado porque eu parecia até enfermeira dele. Eu precisava usar um avental branco, do setor de alimentação, e como ele gostou muito de mim, andava para cima e para baixo com ele. No final das contas ele assinou o meu avental, que acabou indo para a lavanderia. Foi terrível, apagou o nome todo.
MSA: Se existisse um curso como o da Unisinos quando tu começaste, tu terias feito? Ou foi melhor aprender com a experiência?
SANDRA: Com certeza. É importante que existam escolas que preparem para o mercado. Mas por outro lado, eu acho que a minha geração teve certa vantagem. Como quebramos a pedra para construir o muro, acabamos aprendendo muito, por feeling e por necessidade. Era uma outra época, tudo era mais informal. Não existia nenhum curso aqui, só no exterior. Quem se envolvia com produção eram pessoas que estudavam antropologia, letras, sociologia, administração. Se tu tinhas determinado conhecimento, era contratado. Hoje está tudo mais profissional, tudo é visto mais como negócio. Sempre foi um negócio, mas não havia essa consciência mais comercial. A gente fazia tudo por amor à arte.
MSA: Como é transitar em universos tão diferentes como a MPB e o Rock, dentro da produção? Afinal, se lida com diferentes públicos, abordagens, locais de apresentação…
SANDRA: É um pouco diferente. A maioria das produtoras foca em determinado segmento. Tem duas, três bandas, mas todas no mesmo estilo. E não é fácil. É uma coisa de 24 horas, de viver envolvido. A gente está sempre investigando um lugar para fazer show, um lugar para um evento, procurando artistas, fazendo divulgação, elaborando estratégias. Mas é inevitável não ampliar. Tu és levado a isso, percebe que essa condição existe. Para tu teres uma ideia, agora estamos abrindo um selo para divulgar os artistas em todo o país. Vai se chamar MS2 Records. Inauguramos no começo do ano que vem, com o Daniel Drexler e a Ana Prada. Aconteceu naturalmente, partiu dos artistas. Eles pediram que fizéssemos isso. E esse é o grau de confiança que eles têm na gente. O artista confia sua imagem e sua carreira ao produtor. É preciso muita confiança.
MSA: Por último, que conselho tu darias aos jovens que se iniciam agora na produção?
SANDRA: Primeiro, identificação. Tu tens que te identificar com a área, não dá para fazer uma coisa só porque tu achas que pode. Segundo, informação. É fundamental buscar profissionalização e conhecimento, tanto financeiro quanto de causa. Não dá mais para ser amador. Terceiro, bons relacionamentos. Isso tu tens que ter para o resto da tua vida. Fora isso, paixão absoluta. Paixão é tudo o que tu precisas para isso. É muito difícil, é muita responsabilidade, é muita dor inclusive. São muitas as pedras no meio do caminho.